A presença de Ismael Nery na Pinacoteca oferece uma oportunidade de rever um dos artistas mais singulares do modernismo brasileiro. Em cartaz no edifício Pina Luz, em São Paulo, de 5 de setembro de 2026 a 31 de janeiro de 2027, a exposição “Ismael Nery: armadilha moderna” reúne cerca de 230 obras, entre pinturas, desenhos, retratos, autorretratos e composições. A mostra propõe uma leitura ampla de uma produção atravessada por questões como corpo, identidade, espiritualidade, androginia e mortalidade.
A exposição se insere em um momento de renovado interesse pela produção moderna brasileira e oferece ao público a possibilidade de observar, em conjunto, diferentes momentos da trajetória de Nery. Informações atualizadas sobre a mostra podem ser consultadas na página oficial de “Ismael Nery: armadilha moderna” na Pinacoteca. Para outros conteúdos relacionados, o Salão de Arte mantém uma seção dedicada a Arte e Colecionismo.
Ismael Nery e uma trajetória singular no modernismo brasileiro
Nascido em Belém, em 1900, Ismael Nery foi pintor, desenhista, arquiteto, cenógrafo, ilustrador e poeta. Ingressou na Escola Nacional de Belas Artes em 1917 e complementou sua formação na Académie Julian, em Paris, em 1920. Suas viagens à Europa favoreceram o contato com experiências do cubismo e do surrealismo e com nomes como André Breton e Marc Chagall. Ainda assim, sua produção não pode ser compreendida apenas como derivação das vanguardas europeias.
Nery assimilou diferentes linguagens para desenvolver uma poética própria. Em vez de se prender a uma escola artística específica, experimentou soluções formais capazes de expressar suas inquietações sobre a existência humana, a religião, a matéria e a identidade.
Essa característica torna sua posição no modernismo brasileiro particularmente interessante. Enquanto muitos artistas de sua geração procuravam formular imagens ligadas à identidade nacional, Nery concentrou grande parte de sua produção na figura humana e em questões filosóficas de caráter mais universal.
Ismael Nery na Pinacoteca e o corpo como investigação
O corpo ocupa uma posição central na obra de Nery. Suas figuras podem aparecer duplicadas, fundidas ou fragmentadas. As distinções entre masculino e feminino nem sempre permanecem claras, e diferentes personagens por vezes compartilham traços semelhantes.
Segundo a Pinacoteca, temas como androginia, duplicidade e instabilidade da identidade estão relacionados à tentativa do artista de ultrapassar os limites impostos pelo tempo, pelo espaço e pela matéria. O corpo, portanto, não é apenas um tema de representação. Ele se transforma em instrumento para pensar a própria condição humana.
Essa característica contribui para a atualidade de sua obra. As figuras de Nery permitem leituras contemporâneas sobre identidade e gênero, mas precisam ser compreendidas também dentro das preocupações religiosas e filosóficas que orientavam o artista nas décadas de 1920 e 1930.
O Essencialismo e a busca por uma identidade permanente
Uma das chaves para entender sua produção é o chamado Essencialismo, pensamento desenvolvido por Nery a partir da ideia de superar as limitações de tempo e espaço. Sua busca se dirigia a uma verdade humana permanente, situada além das aparências transitórias da matéria.
Essa concepção aparece visualmente em rostos semelhantes, corpos sobrepostos e figuras que parecem perder características individuais. Em “Autorretrato com Adalgisa”, por exemplo, Nery e sua esposa, a escritora e poeta Adalgisa Nery, aparecem com fisionomias que se aproximam e se sobrepõem. A imagem torna difícil estabelecer onde termina uma identidade e começa a outra.
Outro personagem fundamental para compreender esse universo é o poeta Murilo Mendes. Amigo de Nery, Mendes acompanhou de perto sua produção e posteriormente desempenhou papel relevante na preservação de sua memória. O Museu de Arte Murilo Mendes, da Universidade Federal de Juiz de Fora, emprestou oito trabalhos para a exposição na Pinacoteca, sendo sete obras de Nery e um retrato do artista realizado por Alberto da Veiga Guignard.
A participação do museu universitário evidencia também a importância dos acervos públicos para o estudo do modernismo brasileiro. Mais informações sobre esse conjunto podem ser encontradas na Universidade Federal de Juiz de Fora.
Do corpo ideal ao corpo vulnerável
A reflexão sobre a matéria adquire outro sentido quando observada à luz da curta trajetória do artista. Ismael Nery morreu em 1934, aos 33 anos, em consequência de complicações da tuberculose. Ainda assim, não seria adequado interpretar toda a fragmentação corporal encontrada em sua obra apenas como consequência da doença, pois essas inquietações já faziam parte de sua pesquisa artística.
Em trabalhos como “Visão Interna – Agonia” e “Eternidade”, ambos de 1931, a anatomia aparece aberta e fragmentada. O corpo se mistura à paisagem e à terra, aproximando sofrimento físico, espiritualidade, morte e desejo de permanência.
O interesse institucional pela obra de Nery também pode ser percebido em outros acervos brasileiros. O Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, por exemplo, preserva trabalhos do artista e registra sua presença em diversas exposições dedicadas ao modernismo e ao surrealismo. É possível consultar obras no acervo digital do MAC USP.
Como visitar a exposição Ismael Nery na Pinacoteca
“Ismael Nery: armadilha moderna” ocupa o primeiro andar da Pina Luz, localizada na Praça da Luz, 2, no Bom Retiro, em São Paulo. A exposição permanece em cartaz até 31 de janeiro de 2027. O museu funciona de quarta a segunda-feira, das 10h às 18h, com entrada permitida até as 17h.
O ingresso inteiro custa R$ 40, e a meia-entrada, R$ 20. Na compra pela internet, há acréscimo de R$ 2 em taxas. O visitante também pode adquirir o ingresso presencialmente na entrada da Pinacoteca. Um único ingresso é válido, no mesmo dia, para os três edifícios da instituição: Pina Luz, Pina Estação e Pina Contemporânea.
A entrada nos três edifícios é gratuita aos sábados e no segundo domingo de cada mês. Crianças de até 10 anos, pessoas com 60 anos ou mais e pessoas com deficiência estão entre os públicos com direito à gratuidade, conforme as regras da instituição. Estudantes, aposentados, jovens de baixa renda de 15 a 29 anos com ID Jovem e professores da rede privada estão entre os grupos contemplados pela meia-entrada, mediante comprovação.
Os ingressos comprados on-line são enviados por e-mail e podem ser apresentados na tela do celular. Como preços e políticas de gratuidade podem sofrer alterações, recomenda-se verificar as informações antes da visita na página oficial de ingressos da Pinacoteca. Os valores citados neste artigo foram conferidos em 15 de setembro de 2026.
Quem acompanha exposições, feiras e programação cultural também pode consultar a seção de Eventos do Salão de Arte.
Por que a exposição amplia a leitura sobre Ismael Nery
Reunir cerca de 230 trabalhos permite observar relações que uma obra isolada dificilmente revela. Desenho e pintura, anatomia e símbolo, masculino e feminino, religiosidade e desejo aparecem conectados ao longo da produção do artista.
A própria proposta curatorial procura rever a imagem construída posteriormente de Nery como figura isolada ou simplesmente atormentada. O catálogo oficial da exposição apresenta a mostra como uma revisão de sua posição dentro do modernismo brasileiro e chama atenção tanto para a diversidade das linguagens utilizadas pelo artista quanto para as interpretações acumuladas após sua morte.
Para colecionadores, pesquisadores e admiradores de arte brasileira, esse tipo de exposição tem ainda outro valor: possibilita comparar períodos, técnicas e soluções formais, além de aproximar obras provenientes de diferentes coleções públicas e particulares.
Quem foi Ismael Nery?
Ismael Nery foi um artista brasileiro nascido em Belém, em 1900. Atuou como pintor, desenhista, arquiteto, ilustrador, cenógrafo e poeta e desenvolveu uma produção marcada por temas como corpo, identidade, androginia, espiritualidade e mortalidade.
Quantas obras estão na exposição?
A exposição “Ismael Nery: armadilha moderna” reúne cerca de 230 obras, entre pinturas, desenhos, retratos, autorretratos e composições.
Até quando a exposição pode ser visitada?
A mostra permanece no edifício Pina Luz até 31 de janeiro de 2027.
Quanto custa o ingresso da Pinacoteca?
O ingresso inteiro custa R$ 40 e a meia-entrada R$ 20. Compras on-line têm acréscimo de R$ 2 em taxas. Aos sábados e nos segundos domingos de cada mês, a visita é gratuita para todas as pessoas. Valores consultados em 15 de setembro de 2026.
É preciso comprar ingresso separado para a exposição de Ismael Nery?
Não. O ingresso regular da Pinacoteca dá acesso às exposições e instalações da Pina Luz, Pina Estação e Pina Contemporânea no mesmo dia.
Conclusão: Ismael Nery permanece aberto a novas interpretações
A exposição de Ismael Nery na Pinacoteca permite compreender por que uma trajetória tão breve continua a gerar novas leituras. Sua relevância não se limita à proximidade com o cubismo ou o surrealismo. Está também na maneira particular como o artista transformou corpo, identidade, religião e mortalidade em problemas visuais.
Quase um século depois de suas principais obras, figuras híbridas, anatomias fragmentadas e identidades sobrepostas continuam provocando perguntas. Ao reunir um conjunto amplo de trabalhos, “Ismael Nery: armadilha moderna” oferece condições para observar essas questões em perspectiva histórica e reposicionar o artista dentro de uma compreensão mais ampla da arte moderna brasileira.